Meus queridos pacientes, amigos e todos que compartilham da minha visão de vida e da medicina,
Hoje, quero abrir meu coração e ter uma conversa muito franca com vocês. Com 30 anos dedicados à cirurgia plástica, já vi muitas tendências virem e irem, muitas técnicas surgirem e outras se consolidarem. Mas há algo que tem me inquietado profundamente nos últimos tempos, algo que chamo de “gourmetização” da cirurgia plástica. E uso esse termo de propósito, porque ele reflete bem o que tenho observado nesse mundo das redes sociais, onde a busca pelo impacto, pelo “parecer ser”, pelo cirurgião mais “atualizado” e “por dentro dos últimos lançamentos” parece, por vezes, ofuscar o que realmente importa: a sua saúde, a sua segurança e o resultado real e duradouro.
É muito comum hoje em dia vermos procedimentos sendo apresentados como a “última novidade do mercado”, com nomes em inglês, ou denominações impactantes: fox eyes, nano fat, lipo High Definition, face lift deep plane. E aqui, quero ser muito claro: não estou criticando todas as técnicas que podem, sim, ser conhecidas por suas denominações em língua estrangeira. Muitas delas são, de fato, avanços importantes, ou simplesmente a forma como são universalmente chamadas na literatura médica. Minha preocupação, e o motivo deste desabafo, é quando esses nomes são utilizados puramente para fins marqueteiros, quando cirurgias consagradas são “rebatizadas” ou técnicas já fracassadas, que foram deixadas de lado por não apresentarem resultados consistentes ou seguros, são ressuscitadas e propagadas como a grande revolução.
Isso, dentro dos meus princípios e da minha forma de agir, é algo que não condiz com o juramento de Hipócrates que fiz no dia em que me formei médico. É colocar as questões mercadológicas acima da dor, da real necessidade e, muitas vezes, da fragilidade dos pacientes. É desvirtuar a essência da medicina, que é cuidar, proteger e buscar o melhor para o ser humano. E eu acredito que vocês, que me procuram, que confiam no meu trabalho, compartilham dessa visão.
A “Gourmetização” da Cirurgia Plástica: O Que Significa na Prática?
Quando falo em “gourmetização”, refiro-me a essa tendência de “embalar” procedimentos com nomes chamativos, muitas vezes estrangeiros, para dar a impressão de que são algo novo, exclusivo ou superior. É como pegar um prato simples e delicioso, dar-lhe um nome complicado em francês e cobrar dez vezes mais, sem que a essência ou a qualidade tenham mudado.
No nosso campo, isso se manifesta de diversas formas:
- Nomes Impactantes para Técnicas Consagradas: Uma blefaroplastia (cirurgia de pálpebras), por exemplo, pode ser vendida como “eye lift” ou “dream eyes”. Uma lipoaspiração, que já é uma técnica bem estabelecida, vira “lipo HD” ou “lipo LAD”, prometendo resultados que, muitas vezes, dependem mais da anatomia do paciente e da habilidade do cirurgião do que de uma “nova” técnica revolucionária.
- Técnicas Antigas Reembaladas: Algumas abordagens que já foram testadas e até abandonadas pela comunidade científica por falta de eficácia ou segurança, ressurgem com um novo nome e um marketing agressivo, como se fossem a última palavra em inovação.
- Foco no “Produto” e Não no “Paciente”: A conversa se desloca da sua necessidade individual, da sua anatomia, da sua história, para o “produto” que está sendo oferecido. O que importa é vender a “técnica X” ou o “procedimento Y”, e não o que é realmente melhor para você.
Eu entendo que o marketing é uma parte do mundo moderno. Mas na medicina, e especialmente na cirurgia plástica, ele precisa ter limites muito claros. Não podemos, em nome do impacto nas redes sociais ou da busca por mais clientes, desvirtuar a verdade e criar expectativas irreais nos pacientes. A “gourmetização” da cirurgia plástica, para mim, é um sinal de alerta.
O Perigo da Busca Pelo “Último Lançamento” e a Desinformação
Nesse cenário de “gourmetização”, o paciente, muitas vezes, é levado a acreditar que precisa do “último lançamento” para alcançar o resultado desejado. A pressão das redes sociais, onde vemos corpos “perfeitos” e transformações “milagrosas”, contribui para essa busca incessante pelo que é “novo”. E é aí que mora o perigo da desinformação.
Muitos profissionais, infelizmente, se aproveitam dessa busca para vender procedimentos que não são adequados, que não têm comprovação científica ou que, pior ainda, podem ser perigosos. Eles prometem resultados que vão além do que a técnica pode realmente entregar, ou que ignoram completamente os riscos envolvidos. E o paciente, seduzido pela promessa de algo “exclusivo” ou “revolucionário”, acaba se expondo a riscos desnecessários e, muitas vezes, a resultados frustrantes.
Minha preocupação é com a sua segurança. É com a sua saúde. É com a sua autoestima, que pode ser seriamente abalada por uma experiência negativa. A cirurgia plástica não é uma corrida por tendências. É um ato médico sério, que exige conhecimento, experiência, ética e um profundo respeito pelo ser humano.
O Juramento de Hipócrates e a Essência da Medicina
No dia em que nos formamos médicos, fazemos um juramento. O Juramento de Hipócrates. Ele é a bússola que deve guiar nossa prática. E nesse juramento, não há espaço para a “gourmetização” ou para a priorização do lucro sobre o paciente. Ele fala de ética, de responsabilidade, de colocar o bem-estar do paciente acima de tudo.
Para mim, ser médico é uma vocação. Ser cirurgião plástico é uma arte que exige técnica, sensibilidade e um compromisso inabalável com a verdade. Não é sobre vender um “produto”, mas sobre oferecer um cuidado. Não é sobre seguir a moda, mas sobre buscar a harmonia e a saúde.
Quando um paciente me procura, ele não está buscando um “fox eyes”. Ele está buscando um olhar mais leve, mais aberto, que reflita a sua vitalidade. Ele não está buscando uma “lipo HD”. Ele está buscando um contorno corporal que o faça se sentir mais confortável e confiante. Minha função é entender essa necessidade real e oferecer a melhor solução, com a técnica mais segura e comprovada, adaptada à sua individualidade.
Isso significa que, muitas vezes, a melhor solução pode ser uma técnica que já existe há décadas, que é consagrada pela ciência e pela prática, e que não tem um nome “impactante” em inglês. E não há absolutamente nada de errado nisso. Pelo contrário, há segurança, há previsibilidade, há a garantia de que estamos trabalhando com o que há de melhor e mais seguro para você.
A Verdadeira Inovação: Segurança, Individualidade e Resultados Reais
A verdadeira inovação na cirurgia plástica, para mim, não está em dar nomes novos a técnicas antigas ou em seguir modismos. A verdadeira inovação está em:
- Aprimorar as técnicas existentes: Torná-las mais seguras, menos invasivas, com recuperações mais rápidas e resultados mais naturais.
- Personalizar o tratamento: Entender que cada paciente é único e que a cirurgia deve ser adaptada à sua anatomia, aos seus desejos e às suas expectativas realistas.
- Investir em conhecimento e experiência: Manter-se atualizado com a literatura científica, participar de congressos sérios e, acima de tudo, acumular experiência prática para refinar a arte da cirurgia.
- Priorizar a segurança: Desde a avaliação pré-operatória rigorosa até o acompanhamento pós-operatório, a segurança do paciente deve ser a estrela-guia de todo o processo.
É por isso que, no meu consultório, a conversa é sempre sobre você. Sobre o que te incomoda, sobre o que você busca, sobre o que é realisticamente possível alcançar, sempre com a máxima segurança. Não me interessa a “gourmetização” do mercado. Me interessa a sua satisfação e o seu bem-estar.
O Papel do Paciente: Seja Crítico, Seja Informado
Nesse cenário de tanta informação (e desinformação), o papel de vocês, pacientes, é fundamental. Sejam críticos. Sejam informados. Não se deixem levar apenas por nomes bonitos ou por promessas mirabolantes.
Quando você for procurar um cirurgião plástico:
- Verifique a qualificação: Ele é membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP)? Essa é a sua primeira e mais importante garantia.
- Pergunte sobre a técnica: Entenda o que será feito, por que será feito, quais os riscos, quais os benefícios e quais as expectativas realistas de resultado.
- Desconfie de promessas exageradas: Se parece bom demais para ser verdade, provavelmente é.
- Não se baseie apenas em preço: Sua saúde e sua segurança não têm preço. O “barato” pode sair muito caro.
- Busque um profissional que te ouça: Que entenda suas necessidades e que te trate como um indivíduo, não como um número ou um “caso” para aplicar uma “técnica da moda”.
Minha visão de vida e do que é ser médico é a de um profissional que age com ética, transparência e um profundo respeito pelo ser humano. Acredito que a verdadeira beleza reside na harmonia, na naturalidade e, acima de tudo, na saúde e na segurança. E é isso que busco entregar a cada um de vocês.A cirurgia plástica é uma ferramenta poderosa para melhorar a autoestima e a qualidade de vida. Mas ela deve ser usada com sabedoria, responsabilidade e arte. Não se deixe enganar pela “gourmetização” do mercado. Escolha com inteligência, escolha com segurança, escolha um profissional que coloque você em primeiro lugar.



